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Ciência e tecnologia

Um vírus mortal aproxima ciência e senso comum  – Diário do Comércio

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Crédito: Divulgação

Antônio Heberlê*

Há um certo distanciamento histórico entre os pressupostos da ciência, seu caudaloso e sistemático método, e o pensamento latente na opinião pública, o chamado senso comum. O sistema organizado de técnicas e métodos para se chegar a uma determinada conclusão foi construído justamente para se dizer que alguma coisa tem comprovação, tem consistência para além da opinião.

Aqui não se aplicam os critérios de verdade, mas a tentativa de se chegar mais perto possível dela e com lógica observar o que acontece na realidade, independente das nossas vontades, opiniões e crenças.

Passou-se a acreditar mais no que diz a ciência do que dizemos nas ruas e isso se deve ao movimento informacional da sociedade. Os veículos de mídia, por exemplo, reforçam o pensamento científico ao mostrarem com grande destaque o que a ciência comprova.

Existem programas especiais sobre ciência que fazem grande propaganda e até uma panaceia dos estudos científicos. O que atrai a mídia? A sustentação objetiva, as provas, os fatos que podem ser apresentados para a avaliação pública.

Essas características diferem em muito da opinião das pessoas, que pode andar solta como o vento e em princípio não tem compromisso com o que acontece na realidade. O valor da opinião foi sistematicamente rebaixado, porque podem ser tantas quanto se possa imaginar.

O conhecimento que emana dos procedimentos científicos, portanto, leva grande vantagem, seja por apresentar dados, seja por ser mitificado pela comunicação.

Essa clivagem (separação) pode parecer recente, mas não é. Remonta o gênio de Platão, portanto, muitos séculos antes de Cristo. Platão inicialmente pensou no senso comum no que chamou de “doxa”, então compreendida como o juízo subjetivo, pessoal, que teria valor momentâneo, porque não poderia ter uma referência ética, dado que teria a possibilidade da ser falso, ou ter pressuposto de falsidade.

Platão opunha à “doxa” o que chamou de “episteme”, um tipo de saber que tem seu suporte no conhecimento especializado e preciso das coisas. Ou seja, dai é que vem toda essa discussão entre senso comum e ciência.

Pois bem, e o que isso tem a ver com o Covid-19, esse vírus que está virando a cabeça das pessoas neste início de 2020 do século 21? Eu diria que tem tudo a ver, e isso se deve a dois motivos que colaboram para fazer algo quase inédito.

Primeiro, a possibilidade da grande circulação de informações, advinda dos processos tecnológicos disponíveis, para além da mídia tradicional (TV, rádio, Jornal). A internet é a grande rede que faz a informação circular por fora dos circuitos convencionais e oficiais, mais forte uma vez que acoplada aos dispositivos móveis.

Esse fato faz com que as imagens, que são elementos mais críveis na comunicação do que um depoimento, uma fala ou um comunicado oficial, cheguem ao planeta em pouquíssimo tempo.

Depois de ver uma cena, o que mais toca a pessoa é o sentir na pele, e o caso do coronavírus tem mostrado que algumas pessoas só passam mesmo a admitir que algo grave está acontecendo quando a doença chega aos seus parentes mais próximos.

O outro fato que faz essa aproximação entre doxa e episteme acontecer é o trabalho da própria ciência, muito contestada e até desprezada em tempos da vida fluida centrada na produção do capital.

Ela se agiganta nas catástrofes, porque é o reduto do conhecimento que está mais se próxima dos fatos como eles são, independente do que achamos que seja, das nossas vontades.

Logicamente há quem continue a desprezar o conhecimento científico, mas eles são tão desimportantes quanto mais baseados na ignorância e na fixação religiosa em algum tipo de crença, por vezes, o que é mais grave, na má-fé.

E há mais um componente interessante nesta aproximação em função da peculiaridade do vírus, da dificuldade em se ter controle medicamentoso e por isso mesmo pela extensão do estrago que ele é capaz de fazer na vida das pessoas de todo o Planeta, sem exceção.

Então se tem de um lado as pessoas com muita informação, baseada em fatos e fotos, e por outro uma luta insana e muitas vezes perdida do campo considerado o mais crível, a revelar a humanidade de sua fragilidade (centenas de agentes de saúde morrem todo dia), o que mais chama a atenção.

Como descreditar em quem passa noites em claro nos  laboratórios, em agentes que passam ao lado de pacientes graves arriscando as suas vidas. São eles que estão na linha de frente enquanto milhões ficam em casa à espera de uma vacina, de um coquetel de medicamentos que acalme a virulência do novo coronavírus.

As pessoas veem esse esforço dos cientistas (humanos) e por isso acreditam nas suas falas, muito mais do que na fala política, identificada como interessada em outros propósitos que não a salvação das pessoas.

Nesse embate entre doxa e ciência ganha a vida, ganha o bom senso. Quem se arrisca a desobedecer a recomendação científica (OMS), precisa arcar com as consequências. Se for uma ação política a comandar o despropósito de expor as pessoas ao vírus, só se pode comparar a cegueira de um holocausto.

*Pesquisador da Embrapa 

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Redação

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