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Ciência e tecnologia

“Precisamos entender o que está por trás da ausência de meninas em STEM”

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“Precisamos entender o que está por trás da ausência de meninas em STEM”, afirma Alice Rangel de Paiva Abreu, professora emérita da UFRJ. (Foto: PPGSA-IFCS/UFRJ)

Especialista quando o assunto é gênero e trabalho, a socióloga Alice Rangel de Paiva Abreu construiu uma sólida carreira internacional como pesquisadora e gestora de importantes organizações científicas. Em retribuição ao seu legado para a ciência, a professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi homenageada com menção honrosa na cerimônia do 1º Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher, realizada na última terça-feira (11).

Em entrevsita à GALILEU, Abreu compartilha os melhores momentos de sua carreira e reflete sobre os desafios e melhorias nas condições de trabalho e igualdade de gênero no meio acadêmico. Confira a seguir:

Como surgiu o seu interesse por ciência na juventude?
Eu pertenço a uma geração de mulheres que tinha muito pouco contato com as ciências duras. Na época em que fiz o ensino médio, podíamos escolher entre o currículo clássico ou o científico. No clássico, que foi o que eu optei, os alunos não tinham contato com química ou física, e a matemática era bastante elementar. Então, mais tarde, decidi prestar vestibular para o curso de Ciências Sociais que acabara de ser criado na Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Na época, tanto eu quanto a minha irmã fizemos faculdade, o que era bem raro de acontecer.

De lá para cá, questões que envolvem trabalho e gênero se tornaram os principais temas das suas pesquisas. O que te levou a estudar esse assunto?
Após me formar em 1977, me candidatei a vaga no récem-inaugurado mestrado em antropologia do Museu Nacional. Apesar de ter sido uma das quatro pessoas aprovadas com bolsa, interrompi o curso após o primeiro ano, porque havia me casado e mudado para a Inglaterra, onde concluí meu mestrado em sociologia na London School of Economics.

Foi por lá que a questão de gênero começou a chamar a minha atenção, pois participei de um grupo de estudos sobre trabalho a domicílio. De volta ao Brasil, desenvolvi minha tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP), que deu origem ao livro O Avesso da Moda: trabalho a domicílio na indústria de confecção. Na virada dos anos 1960 para os 1970, a indústria das confecções de roupa se voltou para a classe média alta brasileira, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Foi quando percebi que essas marcas importantes tinham pequenas fábricas cuja produção era baseada em costureiras que trabalhavam em casa.

Um mês após defender o doutorado, me tornei professora do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ.

Além da prática em pesquisa, você também tem muita experiência na área de gestão da ciência. Como essa oportunidade surgiu na sua carreira?
Entre 1999 e 2002, minha vida profissional tomou outro rumo: me tornei vice-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), responsável pela área de cooperação internacional, o que me deu uma visão muito mais ampla da ciência.

Após o fim do governo FHC, me mudei para Washington, onde fui diretora do Escritório de Educação e Ciência e Tecnologia da Organização dos Estados Americanos (OEA) e tive contato com sistemas de ciência e tecnologia em toda a América.

Um dos projetos no qual você está envolvida atualmente é o GenderInSite. Conte um pouco sobre o que ele trata.
O GenderInSite é um programa que reúne ciência, gênero e desenvolvimento sustentável. Buscamos influenciar tomadores de decisão no mundo todo sobre a importância de se ter uma política de gênero para mulheres na ciência, inovação, tecnologia e engenharias. Em 2018, publicamos um relatório que fez bastante sucesso.

Como você avalia a presença de mulheres nessas áreas aqui no Brasil?
O Brasil é um caso interessante, porque as mulheres já são maioria em número de estudantes na graduação, no mestrado e no doutorado. O problema é que existem nichos científicos onde as mulheres estão pouco presentes, como nas STEM [nas ciências, tecnologia, engenharias e matemática].

Pesquisas já mostraram que, ao final da primeira infância, as meninas são desencorajadas a gostar de matemática. Em olimpíadas científicas também observamos que, nos primeiros níveis, enquanto os estudantes são mais jovens, o número de garotas e garotos é equilibrado, mas quando o nível vai aumentando, menos meninas participam da competição. Então, precisamos entendermos o que está por tras dessa ausência por parte das meninas em áreas como a matemática.

Durante seu mestrado na Inglaterra, você teve que lidar também com a chegada da maternidade. Na sua opinião, o que pode ser feito para que pesquisadoras que são mães não se sintam sobrecarregadas nessa fase?
Essa questão só será resolvida quando mudarmos o papel dos homens em relação à paternidade e ao casamento. Ou eles começam a ajudar ou isso nunca será alterado. Por isso, é importante a existência de uma licença paternidade mais longa nas empresas e em outras instituições.

Quais outros desafios você destacaria, além da maternidade?
O mais complexo é o desenvolvimento da carreira propriamente dita, aliada aos preconceitos que as mulheres sofrem no dia a dia da profissão como pesquisadoras. Esta é uma questão que precisa ser discutida pelas instituições científicas. Na Inglaterra, por exemplo, há uma carta de princípios que todas as universidades e centros de pesquisa devem assinar e se comprometer a cumprir. Se eles não o fazem, não recebem financiamento.

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