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Ciência e tecnologia

“Precisamos de uma educação em que meninas e meninos possam fazer qualquer atividade”

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“Precisamos de uma educação em que meninas e meninos possam fazer qualquer atividade”. Acima: Nader em abertura da 65ª Reunião Anual da SBPC, em 2013, quando era presidente da sociedade. (Foto: Wikimedia Commons)

Nesta terça-feira (11), em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, a biomédica brasileira Helena Bonciani Nader recebe o 1º Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher por sua contribuição ao meio acadêmico brasileiro. Organizado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o prêmio homenageia sua primeira presidente mulher, a psicóloga Carolina Martuscelli Bori.

Nader foi selecionada como vencedora da primeira edição do prêmio após concorrer com 29 candidatas indicadas por 25 sociedades científicas associadas à SBPC, que também homenageia hoje, com menção honrosa, a socióloga Alice Rangel de Paiva Abreu, professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A biomédica, que é professora titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desde 1989, dedicou boa parte de sua carreira às áreas da glicobiologia e glicoquímica. Estudou as estruturas de polímeros e polissacarídeos e como, juntos, eles conferem função às moléculas.

Em uma de suas pesquisas, descobriu que alterações nesses compostos poderiam se tornar marcadores para segmentos de tumores. Em outro estudo, observou como funciona a heparina, polissacarídeo que impede a coagulação do sangue e é muito utilizado na medicina. A partir de suas pesquisas, muitos produtos e medicamentos novos se originaram.

Confira a entrevista de Helena Nader à GALILEU sobre sua carreira, a importância de incentivar jovens na ciência e os desafios que a profissão de pesquisador ainda reserva às mulheres:

O que despertou seu interesse por ciência quando jovem?

Digo que eu sou o que sou porque tive pais que, apesar de não terem recursos, me deram o que era mais importante: a educação. Sempre gostei muito de estudar e tive professores-chave para atingir tudo o que atingi na vida — professores que me motivaram a pensar e questionar desde a pré-escola. Além disso, sou muito grata ao meu país, que investiu em mim. Vivi uma época em que o Brasil era muito pobre e dependia de doações. Com o tempo, ele percebeu a relevância da educação. Lamento que agora estamos vivendo um período em que viraram as costas para essa área e para a ciência.

Como começou a sua história com a biomedicina?

Quando voltei para o Brasil após estudar meu último ano do ensino médio com uma bolsa nos Estados Unidos, prestei vestibular para medicina na Universidade de São Paulo (USP) e na Escola Paulista de Medicina [da Unifesp]. Quando vi o resultado, chorei horrores. Com a minha nota, eu até poderia entrar em medicina da USP de Ribeirão Preto, mas não prestei para nenhuma faculdade do interior.

Então, com o incentivo do meu pai, que nunca fez faculdade, me matriculei em Ciências Biomédicas da Escola Paulista de Medicina, curso que havia sido criado há apenas um ano. Apesar dos estudantes de lá terem direito à transferência para medicina, apenas dois deles optaram por isso. Toda a turma se apaixonou por essa ciência. Era um curso muito prático, que fazia os alunos pensarem e buscarem informações. Foi uma paixão que continua até hoje.

Depois da graduação, fui direto para o doutorado. Em 1989, fui contratada pela Escola Paulista de Medicina, onde orientei iniciações científicas, mestrados, doutorados e pós-doutorados. Agradeço aos alunos que confiaram em mim.

Ao longo da sua carreira, você teve muitas oportunidades de trabalhar no exterior. O que a fez continuar no Brasil?

O Brasil investiu em mim e é aqui que eu sempre quis ficar e deixar a minha contribuição. Acredito que eu esteja incentivando mais meninas e mulheres a fazerem ciência aqui, em todas as áreas do conhecimento. Precisamos de mulheres matemáticas, engenheiras, filósofas, historiadoras etc. Só podemos progredir como país e como indivíduos se conhecermos o nosso passado e planejarmos o futuro. As humanidades, assim como as áreas de matemática, engenharia e tecnologia, são muito relevantes. E mesmo que haja muitas mulheres nessa área da ciência, ainda não são em número suficiente nos cargos e posições mais altas.

Espero que aqui, no Brasil, eu esteja motivando o jovem a fazer parte dessa profissão, ser pesquisador, e poder fazer ciência para contribuir com o desenvolvimento do país.

O que pode ser feito para incentivar meninos e meninas a serem cientistas?

A mídia é fundamental e nós, cientistas, precisamos aprender a falar sobre o que fazemos de uma forma mais simples, para nos aproximarmos dos jovens. Tenho feito muito isso: ido em escolas, conversado com os estudantes e desmistificado a imagem de que o cientista é um cara de avental branco, cabelo desarrumado, exótico. Somos seres humanos como qualquer outro.

Pesquisas mostram que, desde pequenas, as garotas são menos incentivadas a gostar de ciência. Como podemos mudar isso?

Lutando por uma educação em que meninas e meninos possam fazer qualquer atividade, deixando de limitar as brincadeiras de casinha às meninas e os carrinhos ao meninos, por exemplo. O jovem é ávido por conhecimento e ele não impõe limitações a si mesmo — quem faz isso é a sociedade. Nós oferecemos uma escola que convida a raciocinar e a pensar? Oferecemos uma escola que motiva? Temos que fazer isso. O Brasil é um país maravilhoso e nós temos que lutar para ele volte a ser como era na educação e na ciência.

Como pesquisadora de nível 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), quais dificuldades você enfrentou para chegar nesse patamar?

Ainda vivemos em uma sociedade em que homens são responsáveis por tomar a maior parte das decisões. Poucas mulheres ascendem até altos cargos, mesmo com toda a competência que têm, porque há vários fatores em jogo. Na nossa cultura, somos responsáveis por cuidar da casa, dos filhos, do marido e ainda fazer ciência e publicar artigos. Só agora isso começa a mudar. É um processo lento e não acontece apenas no Brasil. Países desenvolvidos, como o Japão, também têm graves problemas em relação à desigualdade de gênero no meio científico. Atingir o topo da carreira não é algo trivial, e para isso as mulheres precisam ter pessoas presentes e parceiras ao seu redor.

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