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‘Política ambiental do país é desastre’, diz Gilberto Câmara- OVALE

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Xandu Alves
@xandualves10 | @jornalovale

Em seu apartamento em Genebra, na Suíça, o cientista Gilberto Câmara alertou para uma realidade que os brasileiros ainda não têm total compreensão: “É difícil tomarem noção do desastre político e diplomático que tem sido a condução do governo Bolsonaro na área ambiental”.

Diretor do GEO (Grupo de Observação da Terra), organização ligada à ONU (Organização das Nações Unidas), Câmara foi diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e é um dos candidatos a voltar ao cargo.

Ele conversou com OVALE sobre a política ambiental de Bolsonaro, a destruição da Amazônia e o Inpe. Confira.

https://www.youtube.com/watch?v=vNXRbeSdRJ8

Como repercute a crítica de Bolsonaro aos dados do desmatamento? E a política?

É difícil os brasileiros tomarem noção do desastre político e diplomático que tem sido a condução do governo Bolsonaro na área ambiental. O Brasil trabalhou durante décadas para mostrar que tinha capacidade de gerenciar seu meio ambiente de forma sustentável.

Reduzimos o desmatamento da Amazônia com grande esforço. As ações e declarações do governo Bolsonaro, o aumento do desmatamento e do garimpo ilegal e as queimadas na Amazônia e no Pantanal estão destruindo a reputação brasileira.

Como o mundo reage?

Converso com gente do mundo inteiro e todos estão espantados. Não é natural que um país que tenha lutado tanto para construir uma liderança e ter respeito internacional jogue esse trabalho de gerações em troca do nada, porque não se está conseguindo nada em troca. A demissão do professor [Ricardo] Galvão e as críticas ao Inpe não trouxeram nada. Foram atitudes não republicanas, que não constroem o futuro. De certa forma, até me sinto constrangido. Se por um lado o Brasil é reconhecido por tudo o que fez na área ambiental em 30 anos, hoje é visto negativamente. Aparecem Madonna, Leonardo DiCaprio, governantes, papa, secretário geral da ONU todos surpresos com o que acontece com o país.

É um desastre em todas as dimensões, político, diplomático e econômico.

Quais as consequências?

O Brasil, nos últimos 20 anos, tentou se adaptar às grandes mudanças com a ascensão da China e hoje, de competitivo, tem o agronegócio. E o agronegócio, se não conseguir assinar um acordo com a Europa para exportar, não terá recursos suficientes para tocar o país.

O Brasil precisa produzir, vender e se relacionar com o mundo. Seja pelo custo ambiental, da biodiversidade e econômico, é um desastre o que está acontecendo. Estão cada vez menos interessados em negociar com o Brasil.

Bolsonaro disse que nações da Europa, por terem desmatado, não podem criticar o Brasil. Isso ajuda?

Não tem sentido. É atribuir a falta de ação do presente aos erros dos outros no passado. É como não querer um acordo com a Alemanha por causa do Nazismo. Há muitos anos que as florestas na Europa estão crescendo, mas é um absurdo comparar essas florestas com a Amazônia. Elas têm pouca biodiversidade. Nada próximo à diversidade biológica da Amazônia e do papel que a Amazônia tem no clima. É um discurso que não vai para lugar nenhum e só complica.

O senhor tem chance de virar diretor do Inpe?

Perguntei ao comitê de buscas se os critérios seriam técnicos ou políticos. E disseram que seria de excelência científica. Isso eu tenho comprovado. Evidentemente, no critério político que não é do comitê de busca, mas do ministério, a minha possibilidade de ser diretor do Inpe é baixa.

Há um viés que vemos no Brasil todo na escolha de dirigentes de instituições públicas. Esse viés tem a ver com a expressa ideologia. Na realidade, não é questão de ser de direita ou de esquerda, mas de professar uma obediência às diretrizes do governo Bolsonaro.

Trabalhei no Inpe durante vários governos, e isso nunca me pediram. Havia uma separação. Hoje, não. A questão é se a pessoa está disposta a obedecer cegamente diretrizes. Respeito muito o comitê de busca e sei que não é questão do ministro Marcos Pontes, mas do governo que busca a obediência, não a competência.

O Inpe pode acabar?

Não vai acabar.

Se em 2022 o Bolsonaro não se reeleger, e o povo eleger um governo responsável e que dialogue, teremos um renascimento do Inpe. A missão do Inpe não tem quem cumpra, não há quem substitua. Não há como colocar outro no lugar, algo militar. Não há competência, capacidade de missão e organizacional, ligação internacional, pós-graduação. O Inpe está sob dois ataques.

O da ignorância é o do Bolsonaro. E o outro é o do “agora é a nossa vez”, representado pela gestão da AEB (Agência Espacial Brasileira) e da atual governança do programa espacial, de ‘lançar nosso satélite e de comprar nosso satélite’, que não vai levar a lugar nenhum.

Que risco corre o pais minimizando a ciência?

Muito alto.

Na equipe atual do Inpe, estão se reorganizando para encontrar as brechas. É desafio e o Inpe está enfraquecido, mas não pense que as pessoas estão sentadas esperando a banda passar. De jeito nenhum.

A questão é de não desistir e se preparar para o dia da virada. O Inpe vai sofrer muito, mas vai sobreviver e ficar mais forte no futuro. 



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Redação

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