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Ciência e tecnologia

Pesquisadores e ‘caçadores’ internacionais disputam meteoritos após chuva de pedras no sertão pernambucano

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Junto dos moradores, eles vasculham terrenos e mata em procura das pedras. A única pousada da cidade, que funciona junto de posto de gasolina, virou “núcleo mercantil”, onde meteoritos maiores podem valer mais de R$ 100 milénio.

Os primeiros cientistas a chegarem a Santa Filomena, a 719 km do Recife, foram quatro pesquisadoras da Universidade Federalista do Rio de Janeiro (UFRJ), lideradas pela curadora do Setor de Meteoritos do Museu Vernáculo da UFRJ, Maria Elizabeth Zucolotto.

“Chegamos no dia seguinte à chuva de meteoritos e já não tinha lugar para permanecer na pousada da cidade. Estamos hospedadas na mansão de uma moradora”, conta Zucolotto. O foco é encontrar as pedras de mais de 4, 6 bilhões de anos, formadas antes de o planeta Terreno subsistir.

  • Moradores ficam assustados com fragor de pedras que teriam derrubado do firmamento em Santa Filomena

Na pousada estão “caçadores” estrangeiros com objetivos particulares. Os cientistas brasileiros buscam as pedras para pesquisa e para museus. Pesquisadores locais também tentam manter na cidade pelo menos segmento do valor científico e turístico da chuva de meteoros.

Apesar de saírem todos os dias às 6 horas da manhã, munidas com foice e facão para vasculhar os terrenos, as mulheres do Rio ainda não encontraram nenhuma pedra.

“Tentamos comprar algumas com os moradores, mas eles não querem negociar porque somos mulheres”, conta Zucolotto.

Além de buscar pedras para a pesquisa científica, a curadora pretende levar algumas para a coleção de meteoritos do Museu Vernáculo, uma das maiores do Brasil, mas que sofreu danos posteriormente o incêndio de grandes proporções que destruiu o lugar, em 2018.

Até o momento, o grupo, que se intitula “as meteoríticas”, conseguiu comprar uma “pequenininha” de 14 gramas por R$300.

Uma segunda, com 2,8 kg, está sendo negociada com um caçador de meteorito americano por R$18 milénio. Se realizada a compra, o meteorito será levado para o Museu Vernáculo.

O meteorito mais cobiçado pesa quase 40 kg. Por razão do seu valor estimado, de ao menos $120 milénio, a pessoa que encontrou-o não se identificou para a cidade e não foi informado o lugar onde o objeto caiu.

Segundo as fontes ouvidas pela reportagem, a pedra está sob a proteção da polícia. O G1 não conseguiu contato com o órgão para confirmar a informação.

Morador de Santa Filomena mostra meteorito de quase 40kg enco

Morador de Santa Filomena mostra meteorito de quase 40kg enco

O estudante de governo Edimar da Costa Rodrigues, de 20 anos, estava em mansão quando viu o firmamento se encher de fumaça e o WhatsApp lotar de mensagens dizendo que tinha chovido pedra.

Ele saiu para a rua e achou no meio da rossio em frente à Igreja Matriz, exatamente no núcleo da cidade, uma pedrinha de 7 cm e 164 gramas.

Ela estava perto de onde caiu a pedra de 2,8 kg cobiçada pelas “meteoríticas”. O indumento de os fragmentos que acreditava-se serem os maiores caírem em volta da Igreja deixou os moradores ainda mais espantados. O “milagre” ficou maior quando viram seu valor.

“O preço está chegando a R$40 por grama”, explicou Edimar, que não quis revelar o valor da venda. Ele aponta um viés de subida: dias detrás, o grama custava metade do preço. Edimar vendeu a sua pedra a outro “caçador”, também americano.

Localizada no sertão nordestino, Santa Filomena tem 14.172 habitantes, segundo o IBGE. Muro de 3 milénio moram no núcleo, mas a maior segmento está na zona rústico, onde predominam plantações de feijoeiro e mandioca.

“A cidade cá é 90% de agricultores. Tem pouco negócio, zero que gere muito ocupação. É muito humilde, de gente de baixa renda. A maioria das pessoas está achando muito bom. Eu tenho noção de que talvez essas pedras valham muito mais, mas as pessoas precisam de uma renda”, diz Edimar.

Meteorito com 40 kg que caiu no sertão pernambucano custa mais de R$100 milénio. É o maior meteorito inteiro que já caiu no Brasil, segundo pesquisadora do Museu Vernáculo. — Foto: Flávio Filo

Se as pedras grandes que caíram perto da igreja causaram assombro, a de 38,2 kg teve até cerimônia própria. “Na sexta-feira (28), um representante do proprietário levou a pedra para o posto de gasolina onde fazemos o negócio para mostrar ao público”, conta Zucolotto.

Na ocasião, segundo o caçador americano que está negociando com o Museu Vernáculo (ele não quis se identificar), algumas pessoas fizeram ofertas para a compra da pedra. O americano foi um deles.

“Sei o que aconteceu no Museu Vernáculo, do incêndio, e simples que preferiria que o meteorito ficasse no Brasil, mas se o Museu não tiver moeda para compra-lo, eu comprarei”, disse o caçador americano, que já havia comprado 10 meteoritos até o sábado (29).

Ele não revelou o valor ofertado com terror de atrair “criminosos”.

“Só posso falar que é muito moeda. O indumento é que os moradores estão querendo um valor muito custoso pelas pedras. É uma extensão muito pobre, onde o moeda caiu do firmamento. Está sendo muito bom para a cidade”, disse o americano.

Morador de Santa Filomena divulgou imagem da venda de meteoritos para ‘caçadores’ americanos — Foto: Reprodução

“Levante meteorito é do tipo condrito. É um dos primeiros minerais que se formou no Sistema Solar, antes da Terreno. É porquê se fosse um ‘resto de construção’ do sistema. Ele pode narrar para a gente um pouco da pré-história desta formação”, explica o pesquisador do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), Gabriel Gonçalves Silva.

A influência do estudo destas pedras está no pretérito remoto, mas também no porvir: elas permitem entender melhor quando e porquê as próximas podem manar.

“Aliás, estudá-los permite saber informação sobre a dinâmica dos meteoros: quando eles caem na Terreno, as possibilidades de novos impactos, a dinâmica de queda, o que influencia na queda”, acrescenta Silva.

Além de um valor inestimável para a ciência, esse tipo de pedra, segundo o professor da Universidade Federalista Rústico de Pernambuco (UFRPE), Antônio Carlos Miranda, tem superior valor de mercado.

“Meteorito é uma coisa rara, é uma joia, um diamante da ciência. Vale moeda”, explica Miranda.

“Para mim, meteorito é porquê uma jazida. O proprietário dele é o proprietário do terreno. Do ponto de vista ético, não sei do jurídico, eu não faria isso, dar moeda [para quem encontrou o meteorito] e levar embora”, diz o professor.

Após explosão, meteoritos atingem cidades do sertão de Pernambuco

Em seguida explosão, meteoritos atingem cidades do sertão de Pernambuco

Comparando o negócio dos meteoritos com “um português que dá um espelho para o índio para levar o minério do Brasil”, Miranda e mais um grupo de pesquisadores tentam movimentar pessoas e governo em Pernambuco para deixar o meteorito na cidade.

”Zero mais justo do que o governo de Pernambuco e a prefeitura de Santa Filomena expressar que qualquer pedra que caiu é da cidade. Fazer uma guarda do material e fazer um projeto para capacitar os professores da região”, afirma Miranda.

O pesquisador cita porquê exemplo a cidade pernambucana de Alagoinha, onde meteorito caiu em 1923. “Fizemos um projeto de lei criando o dia do meteorito. Criamos um clube de astronomia. A gente leva ciência para cidade”, conta Miranda.

“A gente brinca que o meteorito é a sonda espacial do varão pobre, porque a gente não precisa ir para o espaço, a pedra cai do firmamento”, diz Zucolotto.

O negócio de meteoritos

O caçador americano que negocia o meteorito de 40 kg mora em Arizona, nos Estados Unidos, e ficou sabendo da chuva de meteoritos em Pernambuco “duas horas posteriormente o evento ocorrer”, diz, por meio de uma notícia que circulava nas redes sociais. No mesmo dia, ele comprou passagens de avião e embarcou para o Brasil.

Além de colecionar meteoritos do mundo todo – ele conta que sua mansão parece um museu e que chegou a viajar de duas em duas semanas para comprar meteoritos na África – o americano também vende os artefatos.

“Vendo para museus e para outros colecionadores, mas não é um negócio grande, sabor de colecionar”, diz.

A pesquisadora da UFRJ Amanda Tasi, que faz segmento da equipe de Zucolotto e também está na cidade buscando os fragmentos, explica que caçadores costumam ser chamados de “traficantes de meteoritos” por aqueles que são contra o negócio das pedras.

As pesquisadoras da UFRJ que estão caçando os meteoritos no sertão de Pernambuco, as “meteoríticas”: Maria Elizabeth Zucolotto, Amanda Tosi, Diana Andrade e Sara Nunes. — Foto: Reprodução/redes sociais

“Eu não vejo assim. Cá tem caçador dos EUA, Porto Rico, Uruguai e outros estados do Brasil. Estamos trabalhando em cooperação. Tem o interesse econômico, mas se não estivéssemos cá e se a população não estivesse buscando os meteoritos para vender, eles ficariam perdidos no mato”, diz Tasi.

A pesquisadora estima que, até leste sábado, entre 100 a 200 fragmentos do meteorito foram encontrados em Santa Filomena.

Não há uma legislação específica no Brasil que determine a posse de um meteorito ou que regulamente o seu negócio.

Em Santa Filomena, os meteoritos que caíram em locais públicos, porquê a Rossio da Matriz, ficaram com quem achou primeiro. Os que foram achados perto de casas ficaram com seus proprietários.

Ao contrário de países porquê Argentina e Austrália, onde há uma regra e os meteoros são bens públicos, o Brasil não tem uma legislação sobre a posse e o negócio de meteoritos.

“Na prática, o Brasil acaba seguindo o padrão da lei americana, que é o seguinte: o meteorito é de posse do proprietário do lugar onde ele caiu”, explica o pesquisador da USP Gabriel Gonçalves Silva, que é membro da Bramon, rede brasileira de reparo de meteoros.

“Porém, no Brasil, a riqueza mineral e paleontológica é de propriedade é da União. Tanto que se quiser explorar uma mina, ou pesquisar fóssil, precisa de autorização”, afirma Silva.

A autorização da União também é necessária para viajar com esses materiais para fora do país. Portanto, é provável que ao tentar saírem do Brasil com os meteoritos, estes estrangeiros sejam barrados.

Em 2010, por exemplo, um boliviano foi impedido e autuado por contrabando no Internacional Tom Jobim, no Rio, quando tentava embarcar para Bolívia com pedaços do meteorito que caiu na cidade de Varre-Sai, no Noroeste Fluminense.

O G1 entrou em contato com a Dependência Vernáculo de Mineração, mas não teve retorno até a publicação da reportagem.

A Convenção de Propriedade Cultural da Organização das Nações Unidas para a Instrução, a Ciência e a Cultura (Unesco), assinada por mais de centena países, inclusive o Brasil, estabelece que um “muito de interesse científico” só pode ser levado de um país com autorização do governo lugar.

Venda de meteoros pela internet — Foto: Reprodução

Ainda assim, há um negócio internacional crédulo de meteoritos na internet. Em um site americano, há anúncios de diversos meteoritos por mais de R$ 300 milénio, e um deles é oferecido por R$ 1,38 milhão.

“O preço de meteoritos não segue um padrão, é um caso extremo de oferta e de procura”, conta Silva.

A queda em Pernambuco “fez muito fragor entre os colecionadores e pesquisadores. Tem uma procura muito grande e de repente os preços aumentaram. Se saturar o mercado, o preço pode despencar”, ele afirma.

“Tem poucas pessoas com moeda e capacidade para comprar uma pedra de 40 kg”, diz Silva sobre a pedra maior, de sorte ainda incerto. .

Um pesquisador que esteve no lugar, e não quis se identificar, diz que tenta conscientizar a população de Santa Filomena para não vender os fragmentos.

“Os gringos milionários compram esses fragmentos para levar ou vender no exterior, sendo que poderíamos edificar um museu na cidade. Isso atrairia turistas e seria bom para a pesquisa”, diz o pesquisador.

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