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O princípio da honestidade intelectual

A ciência é o conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis, obtidos metodicamente, sistematizados e verificáveis, que fazem referência a objetos da mesma natureza (Ander-Egg, 1973). Nessa mesma linha Trujillo Ferrari (1974) sustenta que: “Entendemos por ciência uma sistematização de conhecimentos, um conjunto de proposições logicamente correlacionadas sobre o comportamento de certos fenômenos que se deseja estudar. A ciência é todo um conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático conhecimento com objeto limitado, capaz de ser submetido à verificação”. Destaca aquele autor, ao sistematizar as características dos quatro tipos de conhecimento – popular, científico, religioso e filosófico – que o conhecimento científico é: real (factual); contingente; sistemático; verificável; falível; e aproximadamente exato.

Nesse sentido, conhecimento científico é conhecimento provado. As teorias científicas são derivadas de maneira rigorosa da obtenção dos dados da experiência adquiridos por observação e experimento. A ciência é baseada no que podemos ver, ouvir, tocar etc. Opiniões ou preferências pessoais e suposições especulativas não têm lugar na ciência. A ciência é objetiva. O conhecimento científico é conhecimento confiável porque é conhecimento provado objetivamente (Chalmers, 1976).

 Por sua vez, o princípio da honestidade intelectual é a base de um método para explicitar e responder de forma consistente e isenta as perguntas que motivam as pesquisas no campo acadêmico (Matias-Pereira, 2018). A honestidade intelectual diz respeito a aquisição, a análise e a transmissão de ideias. É oportuno lembrar que, importantes cientistas, pensadores e filósofos, como por exemplo, Galileu, Newton, Popper, Kuhn, Feyerabend, Lakatos, Hume, Nietzsche, Weber, entre outros, se ocuparam do tema “honestidade intelectual”. Nietzsche falava de “nossa honestidade” – dos “espíritos livres” –, e Weber utilizava a variante “integridade intelectual”. Assim, o princípio da honestidade intelectual é um marco que impõe as regras que irão dar credibilidade a pesquisa científica.

O filósofo Tugendhat, no seu artigo “Retractaciones sobre honestidad intelectual”, de forma instigante indaga: Por que devemos nos fazer transparentes para nós mesmos? Que motivos podemos ter enquanto seres volitivos e, ao mesmo tempo, racionais, não apenas para querer conhecer a realidade tal como é, mas também para nos tornarmos transparentes a nós mesmos em nossas opiniões sobre nós e sobre nossos “valores”?

 Essas perguntas me permite recordar a integridade intelectual de Hannah Arendt e sua relevante relação com a teoria política. Ao tratar do tema “banalidade do mal” a filósofa destaca a mediocridade do não pensar. Mesmo tendo vivido num período sombrio da história, ela foi capaz de descrever de forma isenta seus contemporâneos com a mesma empatia e honestidade intelectual em suas profundas análises sobre as turbulências políticas do século XX.

O pesquisador honesto intelectualmente, no meu entendimento, não deve permitir que suas crenças pessoais ou políticas desviem sua busca pela verdade. Deve se recusar defender uma ideia que sabe de antemão ser falsa; apresentar de maneira imparcial dados e informações relevantes, e em especial, nunca deixar de referenciar estudos anteriores, para evitar o plágio.

A honestidade intelectual do pesquisador fica comprometida quando ele deixa de reconhecer o mérito de outros pesquisadores que realizaram estudos importantes naquela área de conhecimento. Esse reconhecimento é feito pela utilização correta de citações, de trabalhos publicados em revistas reconhecidas, livros, estudos e teses de doutorado realizadas em instituições importantes. Essas citações irão dar maior consistência e credibilidade ao seu estudo.

 Assumir uma postura de arrogância, sem o devido rigor crítico, por meio da omissão de dados e argumentos contrários, ou seja, se recusando a aceitar que existem outras visões e entendimentos que também podem explicar melhor ou mesmo refutar os seus argumentos, é o sendero que leva um pesquisador a fracassar na sua pesquisa. Sem o devido rigor crítico, usado de forma isenta, a favor ou contra, não é possível realizar uma pesquisa consistente.

 É importante que o pesquisador, a partir de uma visão crítica, reconheça que a força de suas ideias e argumentos depende das evidencias que irão sustenta-las. Nesse sentido, uma pesquisa científica necessita evidenciar de forma clara para o leitor a sua relevância e consistência. Pode-se afirmar, por fim, que a ética e o uso de forma honesta de conhecimento é essencial para o avanço da Ciência.

(*) José Matias-Pereira é economista e advogado. Possui doutorado em Ciência Política pela Universidade Complutense de Madri (UCM-Espanha) e pós-doutorado em Administração pela Universidade de São Paulo (FEA/USP).

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