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Ciência e tecnologia

O enigma das pessoas imunes ao coronavírus que não desenvolvem anticorpos

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Pesquisadora da Universidade de Chulalongkorn (Tailândia) mostra vacina contra o coronavírus para ser testada em macacos.
Pesquisadora da Universidade de Chulalongkorn (Tailândia) mostra vacina contra o coronavírus para ser testada em macacos.MLADEN ANTONOV / AFP

Seis meses em seguida a chegada da pior pandemia do século XXI, persistem importantes dúvidas sobre o nível de proteção das pessoas que superaram a infecção por coronavírus. A maior secção da atenção nesse campo está focada na geração de anticorpos. Essas proteínas são uma das armas que o sistema imunológico usa para bloquear a ingressão de vírus nas células do corpo. Mas os anticorpos são unicamente uma das muitas maneiras pelas quais o sistema imunológico humano pode derrotar o vírus, e é verosímil que haja outras maneiras muito mais importantes de responder às perguntas que continuam a assombrar médicos e cientistas: superar a covid-19 nos torna imunes ao vírus? Por quanto tempo? Há pessoas que têm mais isenção? E se houver dúvidas sobre a isenção, uma vez que isso pode afetar as vacinas? Vários estudos publicados recentemente começam a oferecer respostas para essas perguntas.

Um deles envia uma mensagem preocupante. O trabalho analisou quase 40 pessoas que se apresentaram voluntariamente em um hospital chinês para atender à chamada das autoridades de saúde, que estavam procurando novas cadeias de contágio. Elas não tinham sintomas, mas os testes mostraram que estavam infectadas. Oriente estudo mostra que as pessoas que não apresentavam sintomas segregavam vírus potencialmente contagiosos por mais dias do que pacientes que adoeciam. O que é mais perturbador no trabalho, publicado na Nature Medicine, é que os níveis de anticorpos contra o vírus nesses pacientes eram mais baixos, caíam rapidamente com o tempo e, passados dois meses, eram indetectáveis. Se voltassem a entrar em contato com o vírus, não mais teriam anticorpos para bloqueá-lo.

“Oriente trabalho é o primeiro publicado e revisado por pares que mostra esse oferecido desanimador”, explica Marcos López Hoyos, presidente da Sociedade Espanhola de Imunologia. “É preciso confirmá-lo em séries mais amplas de pacientes e fazer um seguimento mais longo”, alerta.

Mas essa notícia não é tão ruim quanto parece. “Os estudos realizados até agora concentram-se em uma só secção da isenção, a dependente de anticorpos”, lembra López, e há outra grande classe de isenção que pode ser mais eficiente e da qual sabemos muito menos até agora: aquela que se baseia em vários tipos de células do sistema imunológico conhecidas uma vez que linfócitos. Entre todas elas há duas principalmente importantes: os linfócitos CD8 + capazes de matar as células infectadas e os CD4 +, essenciais para produzir novos anticorpos, caso o vírus retorne semanas ou meses em seguida a superação da primeira infecção.

Um dos maiores e mais completos estudos sobre esse tópico oferece resultados muito encorajadores: 100% dos infectados desenvolvem uma resposta imune celular baseada em linfócitos. O trabalho ainda é preparatório, mas foi realizado por médicos do Hospital Universitário de Tübingen (Alemanha) com 180 pessoas infectadas e 185 saudáveis não expostas ao vírus. Esses resultados são complementares a trabalhos anteriores que mostraram que praticamente todos os contagiados desenvolvem anticorpos contra o vírus em seguida uma infecção.

O mais interessante é que em secção dos infectados não foram detectados vestígios de anticorpos. Isto significa que, se eles tivessem feito um teste convencional, seriam contados uma vez que não infectados, mas, na veras, são pessoas que passaram pela doença e também têm linfócitos de memória que devem protegê-las de novas infecções.

Um dos resultados mais interessantes do estudo teuto vem de pessoas não infectadas. Murado de 80% tinham linfócitos de memória capazes de identificar o novo coronavírus SARS-CoV-2. Porquê é verosímil? Os cientistas acreditam que se trata de um caso de isenção cruzada. Essas pessoas provavelmente foram infectadas com outros coronavírus humanos ―HCoV-229E, HCoV-NL63, HCoV-OC43― que só produzem sintomas de resfriados.

Esses coronavírus compartilham algumas proteínas com o temível SARS-CoV-2, de modo que os linfócitos da memória gerados contra coronavírus menos virulentos podem unir-se ao novo vírus. É um tanto que outro estudo recente também mostrou. Agora, a questão é se esses linfócitos são capazes de neutralizar o vírus. Se assim for, o novo coronavírus teria menos possibilidades de expansão entre a população.

“Essas pessoas não expostas ao vírus têm linfócitos CD4 que podem reconhecer vários antígenos do SARS-CoV-2, incluindo a proteína S [com a qual penetra nas células humanas], o que é muito importante para o desenvolvimento de uma vacina”. explica Sydney Ramírez, pesquisadora do Instituto de Imunologia La Joya (Califórnia) e coautora do estudo que identificou esse fenômeno pela primeira vez. Sua equipe agora está analisando se essa isenção cruzada protege contra uma infecção por SARS-CoV-2, mas eles suspeitam que a proteção seja unicamente parcial: não evitaria o contágio, mas talvez impediria os sintomas mais graves da covid-19.

Dois outros estudos feitos na Itália mostraram que não é preciso ter anticorpos para derrotar o vírus. Os dados são de pessoas com agammaglobulinemia, uma doença genética que as impede de produzir anticorpos. Diferentes estudos mostraram que vários infectados que sofriam dessa enfermidade superaram a covid-19 ―alguns mesmo sem sintomas graves―, o que provavelmente implica que eles geraram células imunes, possivelmente linfócitos capazes de localizar e matar as células infectadas, explica Ramírez.

Quando um vírus entra no corpo, é ativado um mecanismo no qual as moléculas de histocompatibilidade identificam diferentes fragmentos do patógeno ―antígenos― e as apresentam aos linfócitos. Centenas de antígenos diferentes podem ser gerados em cada infecção viral e para cada um haverá um linfócito que carregará esse retrato falado para identificar e destruir o vírus, no caso de encontrá-lo. E os linfócitos também têm memória; portanto, se o patógeno ressuscitar semanas ou meses depois ―mesmo para a vida toda em algumas doenças― eles se lembrarão e poderão eliminá-lo.

O sistema nervoso e o sistema imunológico são os dois únicos que têm capacidade de memória, de lembrar de exposições anteriores a patógenos”, destaca África González, imunologista da Universidade de Vigo. O estudo teuto mostra que a resposta do sistema imunológico dos pacientes contra o novo vírus é muito variada. Os pacientes produziram muitos antígenos diferentes. Alguns identificam a proteína S com a qual o vírus se liga às células humanas para penetrá-las e sequestrar sua maquinaria biológica, outros identificam a membrana protetora que o recobre, outros se concentram em outras proteínas e juntos fazem um retrato completo do patógeno e um tropa de células assassinas capazes de eliminá-lo. Essa resposta imune celular provavelmente ajuda a tornar a neutralização de patógenos completa e duradoura.

Esta última informação é muito importante para o desenvolvimento de vacinas, diz González. “A maioria das vacinas desenvolvidas está focada na resposta humoral, na produção de anticorpos neutralizantes que podem bloquear a ingressão do vírus. Talvez uma vacina combinada, que potencialize ambos os ramos, celular e humoral, possa ser a mais eficiente”, ressalta.

Nesse sentido, algumas das vacinas mais avançadas, uma vez que a da Moderna, nos Estados Unidos, concentram-se em um único antígeno ―a proteína S―, por isso poderiam gerar uma resposta imune menos completa do que outras baseadas em vírus completos atenuados, uma vez que duas que a China está desenvolvendo ou, em uma período mais inicial, a da Espanha.

Informações sobre o coronavírus:

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– O que fazer para se proteger? Perguntas e respostas sobre o coronavírus;

– Guia para viver com uma pessoa infectada pelo coronavírus;

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