Política‎

Em meio à crise política provocada pela saída de Moro, Bolsonaro reorganiza apoio ao seu governo

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

RIO — Em meio à crise política deflagrada pela demissão do ex-juiz Sergio Moro e à derrocada econômica causada pelo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro vem procurando reequilibrar o tripé de sustentação de seu governo com acenos ao centrão e à faixa mais pobre da população, além de intensificar a presença de militares no alto escalão.

A tentativa de Bolsonaro de mostrar adesão das Forças Armadas e o discurso de preocupação com os empregos, especialmente de trabalhadores informais, dividem espaço com acordos para distribuição de cargos entre partidos rejeitados pelo eleitorado mais fiel ao presidente. Se dão sobrevida, por um lado, a um governo que viu sua base de apoio afinar nas últimas pesquisas de opinião, os novos pilares do governo também carregam, para especialistas ouvidos pelo GLOBO, limitações que podem corroê-los no longo prazo.

Entenda: As contradições dos depoimentos sobre a reunião ministerial do dia 22

A última pesquisa Datafolha sobre a avaliação do governo, no fim de abril, apontou que o percentual de entrevistados que consideram a atuação de Bolsonaro ruim ou péssima se aproximou dos 40%, mas os que consideram que o presidente faz um bom trabalho também subiu, em comparação com um levantamento feito em dezembro. Este avanço foi puxado principalmente pelos mais pobres. A pesquisa foi divulgada dez dias depois de o governo federal iniciar o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 por conta da pandemia do coronavírus. O benefício é destinado a trabalhadores informais, desempregados, autônomos e pessoas com renda familiar de até três salários mínimos.

Bases do governo Foto: Editoria de Arte
Bases do governo Foto: Editoria de Arte
Bases do governo Foto: Editoria de Arte
Bases do governo Foto: Editoria de Arte
Bases do governo Foto: Editoria de Arte
Bases do governo Foto: Editoria de Arte

 

O efeito do auxílio

Na faixa com renda mensal até dois salários mínimos, Bolsonaro cresceu oito pontos percentuais e passou a ter um governo considerado ótimo ou bom por 30%, segundo o Datafolha. A aprovação na classe média, entre aqueles com remuneração de cinco a dez salários mínimos, foi 11 pontos menor no mesmo período. Em outro levantamento do Datafolha, para avaliar especificamente a resposta do governo à Covid-19, a postura de Bolsonaro chegou a ter 35% de aprovação entre os mais pobres no dia 17, mesma data em que o benefício emergencial passou a ser disponibilizado.

— Os R$ 600 caem como uma luva para o governo ampliar sua aprovação em setores mais populares, que talvez não estejam tão preocupados com as contradições dessa aproximação do presidente com o centrão. Para quem está pensando no acesso ao hospital se pegar o vírus, falar em centrão pode ser algo muito distante— afirma a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Entenda: As investigações no Supremo e no Congresso que preocupam Bolsonaro

A especialista lembra, no entanto, que o benefício tem duração limitada a três meses. A segunda parcela já começa a ser paga amanhã. Além do auxílio emergencial, Maria do Socorro avalia que a aprovação do governo nas faixas mais pobres também passa pelo bom trânsito do presidente entre lideranças neopentecostais, com maior adesão nas classes C, D e E.

Para o cientista político Malco Braga Camargos, da UFMG, a aproximação de Bolsonaro com lideranças do centrão, embora não seja um obstáculo à aprovação popular, entra em conflito com a base mais fiel ao presidente. Eleito com um forte discurso antipetista e fazendo associação de governos anteriores, especialmente os de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, a práticas de corrupção, Bolsonaro passou nos últimos meses a receber apoio explícito e negociar cargos em estatais com lideranças como Ciro Nogueira (PP), Valdemar Costa Neto (PL) e Roberto Jefferson (PTB), todos condenados no mensalão e também investigados na Lava-Jato.

Além do possível atrito com a militância bolsonarista, Camargos avalia que mesmo a negociação por cargos não garante ao presidente um apoio incondicional do centrão, considerado importante para barrar um eventual processo de impeachment.

— Dilma usou a mesma estratégia de se aproximar do centrão quando percebeu que estava ameaçada e colheu um resultado na direção que vimos — lembra o cientista político. — O centrão sabe que não pode confiar em Bolsonaro, que é conhecido por desrespeitar acordos. E boa parte do orçamento do governo está comprometido por conta da pandemia.

Marun de volta a itaipu

Apesar disso, a aproximação entre o governo e o centrão aumenta. Na sexta-feira, em edição extra do Diário Oficial da União, Bolsonaro reconduziu para o cargo de conselheiro da hidrelétrica de Itaipu Carlos Marun (MDB-RS), ex-ministro do governo Michel Temer. O ex-deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA), delatado pela Odebrecht, também foi para o conselho da companhia, entre outros nomes.

Ao participar de um ato com pauta antidemocrática em Brasília no último dia 3, cujos manifestantes pediam o fechamento do Congresso e do STF, Bolsonaro declarou que as Forças Armadas “também estão ao nosso lado”. O presidente havia se reunido com a cúpula do Exército, da Marinha e da Aeronáutica na véspera da manifestação, em encontro que também contou com a presença de ministros do núcleo militar do governo, como Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Fernando Azevedo e Silva (Defesa). Embora a ala militar tenha compartilhado algumas das críticas de Bolsonaro ao Legislativo e ao Judiciário no encontro, a cúpula das Forças Armadas se afastou do discurso do presidente em nota divulgada no dia seguinte pelo ministro da Defesa, em que reforçou o alinhamento dos militares “com a democracia e a liberdade” e criticou as agressões a jornalistas no ato.

O aceno público de Bolsonaro aos militares ocorre em paralelo à abertura de mais espaço no governo para oficiais da reserva das Forças Armadas. Vistos após a eleição de 2018 como uma espinha dorsal do governo, os militares chegaram a perder lugar para a ala ideológica no ano passado, especialmente com a demissão do general Carlos Alberto dos Santos Cruz da Secretaria de Governo após atritos com o grupo mais próximo ao vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos). A presença militar voltou a crescer com a chegada do general Braga Netto à Casa Civil — rompendo uma tradição que havia se mantido até mesmo na ditadura — e com a nomeação do general Eduardo Pazuello como número 2 do Ministério da Saúde.

— A aposta dos militares como força moderadora do presidente não funcionou. Creio que eles sigam até o fim do governo com sua fidelidade a Bolsonaro, mesmo arriscando reputações pessoais, em vez de ensaiar um desembarque como fizeram Moro e Mandetta — avalia o cientista político Mauricio Santoro, professor da Uerj. — Mas há limites a esse apoio dos generais. Vejo um esforço deles, por exemplo, em manter uma separação das Forças Armadas como instituição em relação a esta presença de militares no governo.

Comparação com venezuela

Para Santoro, um exemplo emblemático é o fato de o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, ter desagradado o presidente ao se recusar a cumprimentá-lo com as mãos durante visita de Bolsonaro ao Comando Militar do Sul, no dia 1º de maio. Apesar da mão estendida de Bolsonaro, Pujol usou o cotovelo, seguindo recomendações das autoridades de saúde. Em março, após o presidente cumprimentar manifestantes em outro ato com aglomerações em Brasília, Pujol divulgou um comunicado ao Exército em que classifica o combate à Covid-19 como a “missão mais importante desta geração”, numa linha oposta à adotada por Bolsonaro, que vem minimizando o impacto do vírus.

Na tentativa de Bolsonaro de reforçar a aliança com militares, o cientista político Malco Braga Camargos vê maior similaridade entre o governo brasileiro e os regimes de Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela — apesar das críticas constantes do presidente ao país vizinho.

— A distribuição de poder aos militares, a transferência direta de recursos à população e a tentativa de desacreditar Legislativo, Judiciário e imprensa também foram o caminho trilhado por Chávez e Maduro. A diferença do Brasil para a Venezuela é que aqui as instituições de controle funcionam. Lá foram abolidas — compara Camargos.

Fonte

Etiquetas
Mostrar mais

Redação

INFORMAÇÕES DE CONTATO --- Ligar (67) 99257-2652 --- m.me/NotaDiariabr --- contato@notadiaria.com.br --- https://notadiaria.com.br/

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo
Fechar
Fechar

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios