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“Desalentados”, grupo de diplomatas propõe política externa pós-Bolsonaro

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Os atritos entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e outros líderes mundiais, o alinhamento aos EUA e a maneira porquê o governo tem lidado com a Amazônia e a pandemia de covid-19 têm deixado um grupo de diplomatas preocupado com a reputação do país no exterior. Por isso, lançarão na próxima semana um documento com sugestões para “reconstruir” a política externa depois o término do atual governo.

Na próxima terça-feira (18), às 15h, os ex-embaixadores Celso Amorim e Rubens Ricupero, que não participaram da construção do documento, mas interpretam a iniciativa porquê uma forma de provar “desalento” com o momento atual vivido pelo Itamaraty, participam de debate virtual para o lançamento da epístola de metas. A mediação será da professora Suhayla Khalil, da Instauração Escola de Sociologia e Política de São Paulo, e a transmissão ocorrerá pelo YouTube, Facebook e no UOL.

“Isso reflete um momento de tremendo desencanto com o que está ocorrendo na política externa”, opina o ex-chanceler Celso Amorim em entrevista ao UOL. “A gente tem visto outros diplomatas veteranos que estão todos muito chocados com os rumos que o Brasil tem tomado. Eu acho que isso chegou aos jovens diplomatas também. Os jovens estão muito desalentados.”

Antonio Cottas, diplomata licenciado que idealizou o projeto, explica que o documento reúne sugestões de outros diplomatas, servidores públicos e especialistas na extensão de relações internacionais para “restabelecer” a reputação do Itamaraty. “O primeiro projeto público de uma política externa pós-bolsonarista segmento da constatação de graves danos à reputação e aos interesses do Brasil causados pelo atual governo”, diz a nota de divulgação do evento.

“Já pretérito um ano e meio, o governo não tem sido capaz de apresentar resultados concretos. Pelo contrário, tem posto o Brasil em grandes dificuldades com países parceiros”, afirma Cottas.

“Esse pessoal de agora fez uma mudança radical no organograma logo no primícias do procuração. Isso causou uma dor de cabeça enorme para um monte de gente, para o funcionamento do ministério, e obteve resultados muito duvidosos. Muitas pessoas estão se sentindo constrangidas em tutelar algumas políticas desse governo e estão preferindo ir para postos ou designações um pouco mais ‘low profile'”.

Entre os descontentamentos, o diplomata aponta o alinhamento automático aos Estados Unidos, defendido pelo presidente brasílico. Segundo ele, o comportamento do país arranha a imagem até mesmo aos olhos dos EUA.

“Vamos ter uma política externa sensata. Zero de alinhamento automático e submissão aos Estados Unidos. Primeiro porque eles não respeitam isso. Para um país com as dimensões do Brasil, não tem porquê você se alinhar a uma grande potência. Fora que isso é constrangedor e vexante”, diz.

“Isso não é um alinhamento. Alinhamento foi na era do Forte Branco, do Juracy Magalhães. Isso é submissão”, concorda Amorim. “Nas grandes questões globais, que o Brasil não teria um grande interesse, ele seguia os Estados Unidos. Agora não. Mesmo em coisas importantes. Por exemplo, o Brasil tinha um candidato ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Os EUA, rompendo com uma tradição de 60 anos, lançam um candidato e o Brasil solta uma nota elogiando. Isso aí não tem paralelo”, exemplifica.

A questão ambiental é outro ponto citado pelos diplomatas que afeta, inclusive, o negócio Mercosul-União Europeia, comemorado pelo governo. Países europeus se mostram inseguros de firmar o negócio depois o incidente das queimadas na floresta Amazônica, negadas pelo presidente. O próprio vice-presidente Hamilton Mourão já disse que vê o acordando “naufragando”.

“Eu creio que nem os europeus, nem o Mercosul deseja propriamente liquidar a possibilidade de que o negócio venha a viver no horizonte. Mas ele está condicionado a que haja uma mudança real na política de meio envolvente do Brasil”, diz Rubens Ricupero, que também foi ministro do meio envolvente durante o governo Itamar Franco.

“Quem criou o problema foi o Brasil, porque o negócio estava indo muito muito. A Alemanha tinha interesse em levar adiante, mas o que aconteceu na Amazônia, evidentemente, paralisou tudo. E já houve dois parlamentos, o da Holanda e o da Irlanda, que votaram resoluções contrárias ao negócio”, completa.

“O governo todo festejou o negócio Mercosul-União Europeia. O próprio chanceler festejou porque estávamos negociando há vinte anos. Depois, tudo o que o Brasil fez foi para sabotar o negócio. Brigou com a França. Brigou com a Alemanha. Tratam de mudança climática de maneira vexatória que nos expõe no mundo inteiro. Tudo isso torna o negócio impossível”, opina Amorim.

Segundo os embaixadores, o histórico pragmatismo do Itamaraty, que antes tornava o Brasil um país amigável para participar de inúmeras discussões sensíveis da política internacional, se perdeu com a chegada da ideologia encampada por Bolsonaro, em próprio em temas de direitos humanos, desmatamento e saúde. Com a pandemia de covid-19 e a consolidação do país porquê epicentro da doença, a reputação foi novamente afetada.

“Já tínhamos uma imagem péssima por muitas razões”, diz Ricupero. “O indumentária de que o presidente faz apologia da ditadura e da tortura; que tem essa atitude hostil à política de gênero; o problema dos povos indígenas; os incêndios da Amazônia. E agora em cima de tudo isso, é o país percebido porquê o pior do mundo no combate à pandemia. Nenhum país do mundo mudou três vezes de ministro da Saúde em plena pandemia. E agora, porquê se não faltasse ainda, essa enunciação sobre a vacina, que é a única esperança que se tem agora.”

O ex-embaixador diz que restabelecer a reputação pode ser um processo lento. “Ainda que daqui dois, três anos se tenha outro governo e uma política externa muito superior à atual, as pessoas no exterior vão sempre lembrar deste momento de mergulho e vão proferir ‘que crédito nós podemos ter um país que teve oscilações tão grandes?'”.

Ambos os embaixadores enfatizam que leram o documento a ser divulgado e não concordam necessariamente com todos os pontos, mas consideram importante a ação. “Eu fico com muita assombro pela coragem desses jovens. Entendo que muitos deles provavelmente estão em serviço ativo”, completa Amorim.

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