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Charis em Aristóteles | Ciência & Matemática – O Globo

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Marco Antonio de Avila Zingano – Professor de filosofia antiga na USP

No texto anterior, havia deixado sem traduzir a charis, examinada no capítulo 7 do segundo livro da Retórica de Aristóteles. No dicionário português de Isidro Pereira, o termo é vertido de diferentes modos: graça, prazer, respeito, desejo de agradar, recompensa, agradecimento… Há uma expressão adverbial em grego¸ charin seguido de genitivo, charin tinos, que pode ser vertido por em prol de, em favor de, em vista de. No discurso medieval em latim, a caritas é uma virtude teologal infusa, reconhecida como mater virtutum. O termo caritas está ligado a carus, cujo superlativo, carissimus, nos é bem conhecido, pois é deste modo que ainda hoje nos dirigimos às pessoas queridas por nós. Porém, em grego, em especial para Aristóteles, o que a charis designa?

Assim Aristóteles se refere a ela: é este sentimento com base no qual quem é dito possuir tal sentimento faz um serviço ou favor a quem o precisa, sem nada em troca, sem ter expectativa alguma que algo lhe venha a ser feito em troca, mas o faz unicamente em proveito da outra pessoa (Rhet. II 7 1385a17-19). Os exemplos são eloquentes: tem este sentimento quem auxilia alguém na pobreza ou no exílio, sem esperar qualquer retribuição – por pequenos que sejam estes serviços ou favores. Eis situações bem contemporâneas: auxiliar, por menor que seja o serviço prestado, a quem está na pobreza ou no exílio, ao emigrante que está em situação de penúria e a quem se dá algo para auxiliá-lo: uma roupa, uma comida, um momento de conforto… Ao que Aristóteles acrescenta: “tal aquele que, no Liceu, deu a esteira de palha”. A história nos é desconhecida; aliás, não sabemos se no Liceu designa um lugar (como aquele em que foi estabelecida a escola de Aristóteles), o nome de uma peça de teatro, ou alguma outra coisa; o famoso Piero Vettori (1499-1585), filólogo e humanista de grande erudição, anotou simplesmente em sua edição da Retórica: ‘histora ignota mihi est’, desconheço esta história. O dicionário Liddell-Scott, referência nos estudos clássicos, verte a frase por um provérbio: “a friend in need is a friend indeed”. Belo provérbio, mas será que é isso mesmo? O que podemos dizer é que a tal esteira (provavelmente tosca e de palha) que alguém fornece a uma outra pessoa é de qualidade reles, de valor pequeno – mas o que importa aqui é o ato de a dar, em tais circunstâncias, sem esperar nada em retorno, a alguém que lhe é inteiramente desconhecido – não é nem mesmo seu amigo.

A charis é, portanto, um sentimento humano, radicalmente humano, com base no qual agimos de modo altruísta: é em vista do outro que agimos, sem nenhuma expectativa de tirar algum proveito de tal ato. O elemento chave aqui é aquele ekeinôi da linha1385a19: por conta deste sentimento, fazemos um favor para o outro, em vista do outro, ponto. É aqui que está algo profundamente humano: a gratuidade do gesto em auxílio a uma pessoa – o auxílio dado a quem está em um barco no Mediterrâneo tentando encontrar terras mais acolhedoras, a quem partiu em exílio, a quem está em uma situação de miséria que impossibilita qualquer vantagem em troca. E este ato de caridade não é pensado, por Aristóteles, em nenhuma perspectiva teológica – como mais tarde o pensamento medieval fará dela uma virtude teologal. É puramente humano.

São raros os momentos em que vemos, em Aristóteles, a emergência deste ato humano de caridade, feito em prol do outro e unicamente do outro. Um outro momento é quando, em sua doutrina da amizade, Aristóteles nos diz que a amizade é uma relação de benevolência prática, recíproca e consciente, estabelecida entre pessoas segundo três objetos principais – a virtude ou bem, o prazer, a utilidade –, mas tal que o amigo beneficia o outro enquanto outro, sem visar a tirar daí nenhum proveito. Se, em uma relação supostamente de amizade, alguém proporciona ao seu amigo momentos de prazer porque justamente quer desfrutar conjuntamente de tais momentos, há bem uma relação entre eles, mas esta não é uma relação de amizade, pois a amizade requer que se busque algo para o amigo enquanto outro, sem expectativa de vir a tirar proveito disso. É o que podemos caracterizar como a marca do altruísmo: favorecer o outro enquanto tal. No caso da doutrina aristotélica da amizade, o altruísmo está certamente presente, mas é como que enfraquecido pelo fato de Aristóteles pensar o amigo como um outro Eu. Nesta medida, se o amigo é um outro eu, a sua alteridade volta a ser pensada em termos de uma ipseidade. Faço o que faço para o amigo enquanto amigo, e nisto faço para ele enquanto outro, mas o amigo é um espelho de mim, é um outro eu, de modo que a ipseidade volta a contaminar, de algum modo, a alteridade inicial. No caso da caridade, porém, o outro é qualquer um, sem ser portador de nenhuma marca de minha ipseidade. O ato de auxílio que faço em sua direção é, assim, desvinculado de qualquer reflexo de mim mesmo. O outro, no caso da caridade, é inteiramente outro: é a pessoa que desconheço completamente, mas que, exilado ou emigrada, está em circunstâncias de perigo e abandono. Aqui intervém a caridade em sua expressão máxima de altruísmo: eu o auxilio, ponto. O dicionário Liddell-Scott apostou suas fichas no provérbio “a friend in need is a friend indeed”, mas o amigo não está aqui presente: diante de mim há alguém outro, inteiramente outro.

Há alguns detalhes que merecem ser postos em relevo. A caridade não é geral, abstrata e sem face; ela se exerce em relação a esta pessoa aqui, em conexão com aquela outra que vejo estar em situação de penúria e perigo, hic et nunc, aqui e agora. A caridade é, assim, uma relação de tal pessoa com tal outra, esta aqui com aquela ali: a caridade humana aristotélica guarda a figura da pessoalidade, ela é carnal, ela tem faces que se veem, que se contemplam, que interagem. Não há nada a intermediar este ato que seja uma marca do divino ou de alguma lei: é um ato que o sujeito faz em benefício de alguém outro, que lhe é inteiramente outro, no simples fato de haver aqui um encontro entre pessoas. Outra característica notável é que um tal altruísmo se inscreve na ordem do possível, mas certamente não no registro do necessário. Não há nada que me leve a ajudar, não há nenhuma injunção superior que me obrigue a tanto. Tampouco estou fazendo tal gesto – como ceder minha esteira de palha a alguém mais necessitado – porque estaria honrando uma suposta humanidade em comum entre esta pessoa e mim. Não há nenhuma celebração de alguma comunidade em que esteja reposta, de algum modo, minha ipseidade por detrás da alteridade do sujeito ajudado. A caridade aristotélica é pessoal, ela ocorre na relação entre pessoas e opera na mais absoluta alteridade: é para o outro que faço o que faço, não para fortalecer minha própria humanidade ou para celebrar algum elo em comum com o outro.

Pode-se compreender por que o pensamento medieval quis apropriar-se deste sentimento em termos de uma virtude infusa, de natureza teologal, pois, deste modo, a possibilidade de um tal ato se via garantida por meio da adesão ao divino, que, justamente, sustentaria uma conexão entre todas as suas criaturas. Uma consequência é que a caridade se vê, deste modo, alçada a uma necessidade de reiterar o nexo divino que há entre os homens, por mais desconhecidos que sejam uns para os outros. No uso aristotélico, em meio pagão, porém, a caridade é meramente possível, pois ela se estabelece ou não se estabelece quando há o encontro entre alguém em melhores condições e alguém em péssimas condições: tudo depende do sujeito que é, ou não é, portador de tal sentimento, a charis grega antiga: nenhum elo divino os une, nenhuma celebração é feita de alguma comunidade secreta, simplesmente alguém decide ajudar outra pessoa, sem nenhuma expectativa de retorno. Este é justamente o que se deve ressaltar na caridade aristotélica: a emergência de uma afeição ao outro enquanto inteiramente outro. E uma tal afeição, pensada por Aristóteles sob a forma de um pathos, é por excelência a expressão do altruísmo: fazer com que, nos interstícios de nossos interesses pessoais, surja o interesse do outro, do inteiramente outro. Estamos no seio dos mistérios do ato moral, desta abertura a outrem justamente quando o outro aparece como inteiramente outro. Isto quer dizer, por exemplo, que ele não é amigo – não é por isso que o ajudamos –, mas também que não vem tingido de qualquer outra marca, por exemplo a da inimizade. Este outro não é, neste sentido, nosso inimigo; não é em relação a ele que se exerce a caridade, nem talvez deva se exercer em relação a ele, dependendo do tipo de inimizade que existe (ninguém deve ser caridoso em relação a um nazista ou a um torturador; há outra virtude que governa as relações com os inimigos). A caridade aristotélica é puramente humana e se exerce em relação a quem aparece como inteiramente outro a mim, na mais forte expressão da alteridade: nem amigo nem inimigo, nem membro da mesma nação nem porque é de outra nação, mas simplesmente porque é uma outra pessoa que se encontra em circunstâncias desfavoráveis e se encontra diante de nós, aqui e agora. Você está no Liceu (supondo que seja um lugar) e prepara-se a deitar em sua esteira, mas eis que entra alguém que você desconhece inteiramente e a ele você cede sua esteira. O ato de caridade não precisa de grandiosidade nem magnificência; ao contrário, exerce-se de forma singela, por vezes em relação a coisas bem triviais, como no caso da esteira de palha. Porém, é um ato pessoal, sem ser governado por nenhuma injunção ou mandamento: é o fato humano do reconhecimento possível do outro nos interstícios da ipseidade, que guarda, em seus arcanos, a raiz da moralidade, sob a forma de um pathos, de um sentimento ou afeição de reconhecimento do outro, do inteiramente outro.



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