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Ciência e tecnologia

As Ideias e a Riqueza das Nações | Ciência & Matemática – O Globo

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Ricardo Takahashi, Professor Titular do Instituto de Ciências Exatas, UFMG

Grande parte do debate público em nosso país inevitavelmente passa pela questão do desenvolvimento econômico. Se há um aparente consenso quanto à necessidade de se desenvolver o Brasil, é muito menos simples saber, primeiro, o que é esse desenvolvimento, depois como se faz para chegar lá.

O mundo das ideias, onde vivem as nossas narrativas sobre como funciona a geração de riqueza, termina por influenciar profundamente o mundo real. Se acreditamos em uma explicação sobre como alcançar a prosperidade, faz todo sentido proceder segundo essa crença, na busca de tempos melhores. Isso significa que a qualidade das ideias que abraçamos terá grande repercussão, estabelecendo limites para o sucesso econômico que poderemos atingir.

Nesta coluna de hoje, não pretendo discutir sutis diferenças entre diferentes teorias econômicas contemporâneas. Quero focar nas ideias mais elementares, formadas por enunciados relativamente simples, que são o que normalmente orienta os empresários quanto a quais tipos de negócios querem iniciar, quais tipos de investimentos querem fazer, ou ainda orienta os parlamentares e os governantes sobre como regular a atividade econômica, ou sobre como formular uma política econômica ou industrial.

Assim, quais são os fatores que explicam o crescimento da riqueza de um país? Desde o surgimento do conceito de país como estado-nação, por volta do século XV, muitas respostas têm sido tentadas:

  1. Seria o controle de terras, com seu uso para a extração de minérios e para a produção agrícola, a chave da prosperidade? Essa teoria supunha que as atividades extrativistas e de agricultura seriam as únicas formas de criação de valor, uma vez que a manufatura só transforma o que foi anteriormente tirado da terra.

  2. Seria o comércio internacional de produtos manufaturados a chave para o enriquecimento? De acordo com esse pensamento, um produto manufaturado é mais caro que um bem primário, então basta traçar uma política para, na medida do possível, limitar a importação apenas a matérias-primas, e exportar manufaturados.

  3. Seria a exploração das “vantagens comparativas” a chave do sucesso? Por exemplo, a utilização de mão-de-obra barata e a exploração dos recursos naturais abundantes poderiam fazer do Brasil uma potência econômica?

  4. Finalmente, seria a simples eliminação de qualquer interferência do estado nas relações econômicas entre indivíduos o grande segredo da prosperidade? Essa linha de pensamento postula que, se cada indivíduo é deixado na luta por seu próprio interesse, ele irá maximizar o seu próprio bem-estar, de forma que toda a sociedade atingirá a máxima soma das riquezas individuais.

Com poucas nuances de justificação técnica adicional, essas ideias formuladas nos séculos XVII a XIX parecem constituir o núcleo segundo o qual tanto a política econômica quanto a própria atividade econômica vêm sendo interpretadas e formuladas em nosso país.

Nosso modelo de industrialização, por exemplo, veio até aqui supondo que bastaria construir uma planta industrial em território nacional, e assim estaria garantido o desenvolvimento de uma região, sem qualquer preocupação quanto a toda a tecnologia ser estrangeira e todo o maquinário ser importado. Estamos aprendendo, da pior forma possível, que nessas condições as fábricas podem ir embora tão rápido quanto chegaram, deixando atrás de si a pobreza, em lugar da riqueza.

Já o debate em torno das vantagens de um “estado mínimo” não se restringe ao Brasil. Em países como os Estados Unidos, esse debate assume a forma de uma disputa entre gastos sociais e ganhos empresariais. No Brasil, há a dimensão adicional de que se encontra em jogo a estratégia para vencer o subdesenvolvimento. O debate desta questão, como de tantos outros temas da sociedade, nem sempre recorre à racionalidade como instrumento para resolução de controvérsias. Assim, por um lado, a atual formatação do Estado brasileiro encontra-se muito distante do que pareceria a melhor máquina governamental que se possa imaginar. Seria um grande avanço, para os que defendem o papel do estado, reconhecer as dificuldades existentes e assim partir para a busca de alternativas mais eficazes. Por outro lado, os defensores das versões mais toscas da ideia do “estado mínimo” não parecem preocupados em explicar por que motivo imaginam que se o Brasil seguisse seus preceitos ele iria ficar parecido com a Coréia do Sul, a Suécia ou mesmo os Estados Unidos – países que nunca estiveram próximos de colocar em prática a ausência do estado – e não com a Somália ou o Afeganistão, tão mais próximos do modelo de governança que defendem.

Ao final do século XX, um conjunto de fatos que pareceram anômalos para a teoria econômica disponível à época motivaram o desenvolvimento de esforços teóricos para se compreender a causa da riqueza das nações. Primeiro o Japão, a seguir os chamados Tigres Asiáticos (Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul), não apenas se tornaram nações ricas, como também causaram significativas transformações no comércio internacional. Como consequência, as economias mais avançadas do ocidente entraram em uma crise que parecia indicar sua provável decadência. Mas o que afinal tinha dado errado com países como Estados Unidos, Inglaterra ou Alemanha?

A história do que aconteceu a partir dos anos 1980 é complexa, e deságua no mundo como hoje o conhecemos. Estados Unidos e Europa, como sabemos, souberam se reposicionar, e voltaram à posição de protagonistas principais, agora compartilhada com os novos integrantes do grupo de países desenvolvidos. Mais ou menos na virada do século XX para o século XXI, um novo participante desse grupo emerge: a China.

A teoria econômica, na busca de explicar as mudanças ocorridas entre 1970 e os dias de hoje, introduziu duas novidades que me parecem cruciais. Primeiro, o avanço tecnológico deixou de ser um detalhe, e passou para o centro do sistema de produção de riqueza. Assim, se as escolas clássicas de economia costumavam descrever uma nova tecnologia como uma simples “vantagem temporária”, que mais cedo ou mais tarde acabaria por ser absorvida por todos os competidores, tornando-se irrelevante no longo prazo, a nova interpretação passou a compreender que a questão não é cada inovação tecnológica em si. O fator que faz a diferença é a capacidade de manter um fluxo regular de geração de novas tecnologias. Precisamente essa capacidade viabilizaria que um país mantivesse, a longo prazo, a vantagem competitiva em relação aos demais – possibilitando-lhe um processo sustentado de enriquecimento.

A segunda novidade incorporada pela teoria econômica foi a atribuição de uma centralidade ao conjunto dos fatores que possibilitam que um país desenvolva um arranjo produtivo capaz de sustentar um processo contínuo de inovação tecnológica que, por sua vez, se transforma em capacidade de produção de bens de alto valor que, por fim, asseguram um posicionamento estratégico favorável a um país no comércio internacional [1].

Em um mundo no qual uma nação rica pudesse ser formada pelo uso intensivo de mão-de-obra barata, pela exploração de recursos naturais e por uma economia agrária, seria mesmo fútil qualquer investimento em educação, ciência e tecnologia. Mas em um mundo em que a capacidade de gerar inovações tecnológicas torna-se a chave da prosperidade, itens tais como a qualidade do sistema de ensino, ou a presença de um sólido sistema de produção de ciência e tecnologia, passam a constituir elementos indispensáveis para o desenvolvimento econômico de uma nação.

Muitos fatores adicionais são também necessários, tais como um ambiente normativo-legal adequado, uma infraestrutura satisfatória, e outras. No entanto, não existirá a chance de superarmos o subdesenvolvimento se as ideias que habitam as nossas mentes não o permitirem.

[1] Uma das primeiras sínteses desse tipo de formulação pode ser encontrada no livro “A Vantagem Competitiva das Nações”, de Michael Porter, publicado em 1990.



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