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Ciência e tecnologia

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A Polygrapha suprema
A Polygrapha suprema uma borboleta rara, que vive na Mata Atlntica e est ameaada de extino pela perda de habitat (foto: Augusto Rosa/Divulgao)

Pequenos, complexos e extremamente diversos, os insetos esto presentes em praticamente todo o planeta. Contudo, nos ltimos tempos, sua populao tem sofrido diminuies severas. Apesar de executarem funes essenciais para a vida dos outros seres vivos, poucas medidas para que esse cenrio catico seja revertido foram tomadas, alerta um grupo de cientistas internacionais.

A partir da reviso de uma srie de estudos, os pesquisadores apontam os fatores que desencadeiam a reduo do nmero desses animais, que vo desde as mudanas climticas ao dos homens, sobretudo com uso de produtos qumicos na agricultura. Na pesquisa, publicada na revista especializada Biological Conservation, os cientistas tambm sugerem maneiras de evitar a diminuio dos artrpodes e pedem o engajamento mundial nessa tarefa.

medida que o tempo passa, a humanidade exige mais dos ecossistemas, que j no conseguem se recuperar dos danos que sofrem. Como consequncia, extines de insetos, ainda no quantificadas e no quantificveis, esto ocorrendo corriqueiramente. Essa perda um grande prejuzo para o planeta, principalmente porque muitas espcies ainda no so nem conhecidas pelo homem, explica Pedro Cardoso, pesquisador do Museu Finlands de Histria Natural Luomus e da Universidade de Helsinque, na Finlndia. “ surpreendente o quo pouco sabemos sobre biodiversidade em nvel global”, destacou ao Correio Cardoso, que assina o trabalho com outros 18 pesquisadores, de pases como Alemanha, Colmbia, e frica do Sul.

“Apenas de 10% a 20% dos insetos e outras espcies de invertebrados foram descritos e nomeados. E daqueles com um nome, sabemos pouco mais que uma breve morfologia. O nmero de espcies de insetos ameaadas e extintas lamentavelmente subestimado, porque muitas so raras ou no descritas”, detalhou o cientista.

Na anlise, Cardoso e sua equipe avaliaram uma srie de levantamentos feitos por outros investigadores da rea, relacionados reduo do nmero de espcies de insetos, com o objetivo de identificar todas as causas envolvidas nesse cenrio preocupante. “A atividade humana responsvel por quase todos os declnios e extines da populao atual de insetos. Se identificarmos e quantificarmos as diferentes maneiras pelas quais estamos agindo sobre eles podemos mudar esse cenrio”, frisou o especialista portugus.

Ameaas

Nas anlises, eles constataram que perda de habitat, poluio, prticas agrcolas prejudiciais, espcies invasoras (que se proliferam de forma descontrolada), mudanas climticas, superexplorao (como consumo alimentcio de determinadas espcies) e extino de espcies codependentes contribuem para o declnio da populao de insetos e extermnio de alguns deles.

Para os cientistas, os dados mostram fatores que podem ser revertidos. Por exemplo, com a diminuio do uso de pesticidas na rea agrcola. “Muitos pases europeus esto proibindo ou eliminando progressivamente os herbicidas base de glifosato. As solues esto agora disponveis. Precisamos agir de acordo com elas”, destacou Cardoso.

Walkymrio de Paulo Lemos, pesquisador entomologista da Embrapa Amaznia Oriental, em Belm, acredita que os especialistas internacionais fazem um pedido que pode e deveria ser atendido. “Na Embrapa, j trabalhamos em busca de alternativas que possam diminuir os danos causados a esses animais dentro da agricultura, at porque eles so extremamente necessrios a essa prtica. Quase 90% das plantas cultivadas no mundo necessitam da polinizao dos insetos. Ns ainda no conhecemos os efeitos das mudanas climticas, mas, com certeza, elas tero um impacto nessas populaes”, opinou.

Para Reginaldo Constantino, professor do Departamento de Zoologia da Universidade de Braslia (UnB), o estudo mostrou dados relevantes e muitas medidas podem ser tomadas para impedir que as populaes de insetos diminuam ainda mais. “Temos fatores mais difceis, como a extino de espcies dependentes. Por exemplo, no caso da morte de uma ona, seus parasitas vo desaparecer, e no temos muito o que fazer sobre isso. Mas a maioria das outras medidas pode, sim, ser combatida. Na agricultura, principalmente. Usar outros produtos que no sejam nocivos aos animais e explorar opes, como o controle biolgico, no qual os prprios animais ajudam a combater pragas, so algumas das alternativas possveis”, detalhou o especialista. 

Constantino considerou que as informaes so valiosas, pois ajudam a entender quais reas geram perigo aos animais, mesmo que o impacto seja menor quando comparado com outros fatores. “O uso de insetos para a alimentao algo que ocorre mais em pases do Oriente, mas, ainda assim, interfere. Por isso, importante ter sido apontado pelos cientistas. Serve como um alerta”, assinalou.

Prioridades

Os autores do estudo relataram que um dos principais motivadores do levantamento foi a falta de ateno dada aos insetos. Segundo eles, eles vm sendo menosprezados at mesmo pela comunidade cientfica. “Os prprios cientistas tm de rever prioridades e comear a privilegiar o conhecimento desses seres, que so negligenciados. Isso ocorre tambm porque muito mais fcil obter financiamento para grupos ou temas mais na moda”, explicou Cardoso.

Walkymrio Lemos tambm tem esse mesmo entendimento, de que os insetos so deixados de lado quando o assunto preservao. “Quando falamos em destruio do meio ambiente e em extino, a maioria das pessoas j pensa nas rvores e nos animais maiores, como as onas, mas os insetos dificilmente so lembrados. Como os prprios autores do estudo falam, isso ocorre provavelmente porque eles no fazem parte da fauna carismtica do planeta, no so to bonitos”, cogita o especialista.

Os pesquisadores sugerem maior ateno, especialmente das autoridades, para evitar o agravamento do quadro. “Esse cenrio pode, certamente, mudar. Basta que polticos, o pblico em geral e os prprios cientistas o queiram. Os polticos tm de compreender que no vivemos num vcuo ecolgico, ningum pode ter qualidade de vida sem considerao pela natureza, principalmente a sua componente mais rica, os insetos”, frisou o autor do estudo.

A sociedade em geral, segundo Pedro Cardoso, pode ter uma ao muito importante, no s pressionando os polticos, mas tambm nas aes dirias, de conotao econmica ou no. “Todas as revolues comearam por atos isolados. Nesse caso em particular, se pensarmos que muitas espcies de insetos esto restringidas a reas minsculas, que podem ser medidas em hectares ou poucos quilmetros quadrados, qualquer jardim pode contribuir de forma decisiva para a sobrevivncia de uma espcie nica, que pode ainda nem ter um nome, que nunca ningum identificou”, enfatizou.

O cientista tambm ressaltou que o Brasil, sendo um dos pases com maior diversidade no mundo, tem um papel crucial no conhecimento e na conservao desses seres. “O Brasil pode, deve e tem capacidade cientfica para liderar essa temtica globalmente, basta deixar a cincia ter uma palavra, o que, infelizmente, nos dias de hoje, no parece nada fcil”, complementou.

Alerta sobre abelhas 
e vaga-lumes

Um estudo publicado na semana passada na revista Science por pesquisadores da Universidade de Ottawa, no Canad, mostrou que as abelhas, um dos principais polinizadores, so menos comuns do que costumavam ser na Amrica do Norte. De acordo com os dados reunidos pelos autores do trabalho, 50% menos provvel ver uma abelha na regio do que era antes de 1974. Outro relatrio, tambm divulgado na semana passada, por cientistas da Malsia, alertou para a diminuio dos vaga-lumes. Segundo os investigadores, trs razes contribuem para essa reduo: a perda de habitat, a poluio luminosa, j que as luzes artificiais afetam o ritmo desses insetos, e o aumento do uso de inseticidas.

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Redação

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