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Espalhados por toda ilha, imensos e misteriosos blocos de pedra esculpidos tinham fun
Espalhados por toda ilha, imensos e misteriosos blocos de pedra esculpidos tinham funes religiosas e culturais, como em funerais (foto: Tina Colho/Terra Imagem)

Quando os europeus chegaram longnqua Ilha de Pscoa, a 3 mil quilmetros da Amrica do Sul e distante 2 mil quilmetros do territrio habitado mais prximo, encontraram uma sociedade muito peculiar, que construa imensos monumentos no local, chamado originalmente Rapa Nui. A histria tradicional conta que o desembarque dos visitantes do Velho Mundo coincidiu com o colapso desse povo, provavelmente por brigas internas e explorao desordenada dos recursos naturais. Esse captulo, porm, pode estar errado, segundo um estudo da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos.

“O pensamento geral de que a sociedade que os europeus viram quando apareceram pela primeira vez havia entrado em colapso”, diz Robert J. DiNapoli, candidato a doutorado no Departamento de Antropologia da universidade, que liderou a anlise. “Nossa concluso de que a construo de monumentos e os investimentos nessas esttuas ainda eram partes importantes das vidas dos ilhus quando esses visitantes chegaram.”

De acordo com DiNapoli, acredita-se que Rapa Nui tenha sido colonizada no sculo 18 por marinheiros polinsios. Eles logo comearam a construir esttuas megalticas e grandes chapus usados para rituais culturais e religiosos, incluindo enterro e cremao. Uma narrativa amplamente aceita de que a fabricao dos monumentos parou por volta de 1600, aps um grande colapso social.

Na pesquisa, publicada no Journal of Archaeological Science, a equipe de DiNapoli apresenta uma cronologia para a construo das esttuas, integrando as datas de radiocarbono existentes com a ordem de montagem necessria para fabricar monumentos e os registros escritos de viajantes holandeses, espanhis e ingleses. Em conjunto, disse o cientista, os dados indicam que ilhus de Rapa Nui continuaram a construir, manter e utilizar os monumentos por pelo menos um sculo e meio depois de 1600.

Relatos

O projeto comeou como parte da dissertao de DiNapoli, focada no processo de construo da arquitetura dos monumentos. Analisando 11 locais, os pesquisadores examinaram a sequncia necessria de montagem, comeando com o erguimento de uma plataforma central, e adicionando diferentes estruturas e esttuas.

Isso ajudou a entender as diferentes datas de radiocarbono encontradas em vrios locais de escavao da ilha. A fabricao dos monumentos, segundo a equipe, comeou logo aps o assentamento polinsio inicial e aumentou rapidamente, em algum momento entre o incio do sculo 14 e meados do 15 com uma taxa constante de construes que continuaram muito alm do colapso hipottico e da chegada dos europeus.

Quando os holandeses desembarcaram, em 1722, as observaes deixadas em dirios de viagem relataram que os monumentos eram usados para rituais. Os textos no apresentavam evidncias de decadncia social. O mesmo foi narrado em 1770, quando marinheiros espanhis chegaram ilha. “As estadias dos europeus foram curtas, e as descries, breves e limitadas”, conta DiNapoli. “Mas eles fornecem informaes que nos ajudam a pensar sobre a cronologia das construes e o uso das estruturas monolticas como parte da vida cultural e religiosa local.”

No entanto, quando o explorador britnico James Cook visitou Rapa Nui quatro anos depois, em 1774, ele e parte da tripulao descreveram uma ilha em crise, com monumentos tombados. S a partir da, que, de acordo com a pesquisa da Universidade de Oregon, de fato, a sociedade local comea a desmoronar — embora jamais tenha sido eliminada.

Resilincia

“Eventos como assassinatos, roubo de escravos e epidemias tiveram, sem dvida, efeitos devastadores”, afirma um dos coautores do estudo, o antroplogo Carl Lipo, da Universidade Binghamton, em Nova York. “No entanto, o povo Rapa Nui — seguindo prticas que lhes proporcionaram grande estabilidade e sucesso ao longo de centenas de anos — continua suas tradies. O grau em que sua herana cultural foi transmitida — e ainda hoje est presente, por meio da linguagem, das artes e das prticas culturais — bastante notvel e impressionante. Acho que esse grau de resilincia foi negligenciado anteriormente devido narrativa do colapso, mas merece, agora, reconhecimento”, conclui.

A pesquisa norte-americana junta-se a outros estudos que tentam desvendar os mistrios de Rapa Nui. J se sugeriu que a decadncia da sociedade construtora das esttuas gigantes foi impulsionada por mudanas climticas e culturais, especialmente devido ao contato com os europeus.

Um desses trabalhos, do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha, baseou-se em amostras sedimentares para refazer uma histria de 3 mil anos, para demonstrar que as secas e as estaes chuvosas podem ter influenciado os ilhus. As viagens martimas, por exemplo, dependiam desses padres climticos. Por isso, os locais passavam longos perodos de intercmbio cultural ou de isolamento. A chuva era importante para a manuteno das florestas de palmeiras nativas, diz o estudo, publicado na revista Frontiers in Ecology and Evolution. J a estiagem contribua para o desmatamento cclico da ilha.

A equipe espanhola tambm usou datao por radiocarbono e anlise de DNA de artefatos e de restos mortais humanos para descobrir onde os habitantes viviam na ilha, o que cultivavam e comiam e a influncia das culturas alm de seus ancestrais polinsios. Os dados ecolgicos e culturais sugerem, segundo os pesquisadores, que, diferentemente do que vem sido sugerido h sculos, no houve um desmoronamento abrupto dos Rapa Nui.

“Nossas descobertas desafiam as teorias clssicas sobre um colapso e pintam um quadro de um longo e gradativo processo, estimulado tanto por mudanas ecolgicas quanto culturais. Em particular, as evidncias sugerem que no houve um colapso repentino antes da chegada dos europeus”, diz a pesquisa, em consonncia com o que diz, agora, o estudo da Universidade de Oregon.

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